o museu das linhas invisíveis
setembro 22, 2009 by maria julia barbieri
Filed under AUDIOVISUAL, CONTEMPORÂNEO

ARQUITETO: DANIEL LIBESKIND
http://www.daniel-libeskind.com/
OBRA: JEWISH MUSEU (MUSEU JUDEUDE BERLIM)
http://www.juedisches-museum-berlin.de/site/EN/homepage.php
ANO: 1999
IMAGENS: Maria Júlia Barbieri
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por Maria Júlia Barbieri
Berlin -01:00 52°30′ N 13°22′ E
Uma grande superfície metálica reflete algumas luzes que iluminam a rua. O vento frio, o ar gelado e a ausência de qualquer vestígio humano fazem com que tudo pareça imóvel e silencioso, mas de uma imobilidade e um silêncio tensos, como aqueles que precedem o momento da explosão. A superfície lisa de metal afeta como a sensação de arrepio que sobe pela espinha e levanta os pêlos do braço, como uma aranha deslizando numa uma superfície muito lisa. Parece não haver nenhuma abertura acessível ao corpo, uma porta ou qualquer coisa do tipo. Aliás, toda essa grande superfície traz uma vaga lembrança do monolito de 2001[1], uma presença de algo indecifrável e estranho, algo que hipnotiza, ao mesmo tempo em que amedronta. Gelado. Gosto de aço inoxidável. Alguns rasgos oblíquos e estreitos a cortam, mas nada mostram de seu interior. Por onde penetrá-la?
[1] 2001: Uma odisséia no espaço é uma produção dirigida por Stanley Kubrick que tem como tema a descoberta do espaço pelo homem. “O monolito negro, além de servir de ponto de transformação dos rumos da Terra, é responsável pelo maior enigma do cinema. Sem resposta clara ou explicação convincente, ninguém, a não ser Kubrick, poderá nos elucidar o mistério que envolve o filme. Sua construção linear sobre a evolução humana parece corromper a visão que temos da vida e do universo. Sua metamorfose intergalática nos confunde e assusta. A linearidade pode não ser verdadeira.” RIBEIRO, Thiago. “… e Deus criou o universo”. Revista Eletrônica Cinemando no 4. fev.2003. Disponível em: < http://www.cinemando.com.br/arquivo/filmes/2001.htm> Acessado em 10 jun. 2006
Ao lado, uma construção histórica foi preservada. Duas estátuas-sentinelas guardam sua porta. Há dizeres numa língua desconhecida. Há uma coroa e um brasão. Dois corpos, um ao lado do outro. No entanto, a distância que os separa não se restringe aos poucos metros que vão desde onde um termina e até onde o outro começa. É uma distância histórica, secular, que gera uma estranha tensão entre as superfícies. Como um invisível campo de forças, parece impossível conectá-las por meio de qualquer fio de memória. No entanto, o corpo é atraído para o segredo que, ao mesmo tempo, as separa e as une. Lado a lado, convivem a linha segmentar da história e a linha de fuga alienígena. O que resta é entrar pela única via de acesso possível: o prédio das estátuas-sentinelas.

Ao atravessar a porta, algumas palavras de Tschummi: “Cada porta implica um movimento de atravessar a sua estrutura. Cada espaço arquitetural implica e deseja a presença intrusiva que o habitará.” (TSCHUMMI, 1999, p.123). Nada surpreende nesse espaço previsível. No entanto, uma abertura estranha, como uma passagem secreta, revela uma escada que desce encerrada por nuas paredes de concreto. A poucos passos da abdução, o portal, que leva ao interior do grande prédio alienígena, atrai o corpo para si. Em direção ao subterrâneo desconhecido, o som dos passos reverbera através das paredes nuas.
Um corredor se abre em duas direções balizadas por paredes extremamente brancas. E, de novo, alguns dizeres numa língua desconhecida. Linhas iluminadas marcam o teto. Não se pode ver onde terminam, mas vê-se que desenham caminhos. Como os atalhos que se bifurcam nos jardins e labirintos de Jorge Luis Borges, eles propõem uma escolha. No entanto, como se pode escolher entre caminhos que se desconhece? Qualquer um deles levará a uma destinação desconhecida. Como nas palavras de Deleuze:
“Ao mesmo tempo ainda, há como que uma terceira espécie de linha, esta ainda mais estranha: como se alguma coisa nos levasse, através dos segmentos, mas também através de nossos limiares, em direção a uma destinação desconhecida, não previsível, não pré-existente. Essa linha é simples, abstrata, e, entretanto, a mais complicada de todas, a mais tortuosa: é a linha de gravidade ou de celeridade, é a linha de fuga e de maior declive (‘a linha que o centro de gravidade deve descrever é, certamente, bem simples, e, pelo que ele acreditava, reta na maioria dos casos… mas de outro ponto de vista, tal linha tem algo de excessivamente misterioso, pois, segundo ele, ela não tem nada senão o caminho da alma do dançarino…’).” (DELEUZE & PARNET, 1998, p.146)

O ponto crucial de uma escolha sem sentido: se a destinação é desconhecida, todos os caminhos são equivalentes. É o jogo do indecídivel. Essa linha de fuga parece conduzir ao longo de uma linha iluminada do lado direito. No entanto, depois de mais alguns passos, surge de novo um atalho que se bifurca. Uma forma triangular divide três caminhos. De qualquer ponta do triângulo, apenas dois caminhos são visíveis.
“Os destinos, na mitologia grega, são uma urdidura de coisas que poderiam apresentar um caráter próprio, mas desaparecem em uma espécie de textura ou plano onde ninguém é capaz de identificar qual é o caminho que se deva seguir. Esse é um tópico muito interessante. No momento em que se muda de geometria e de estratégias tectônicas, o labirinto prevalece.” (LIBESKIND, 1996, p.11)
Um corredor sem saídas laterais. Extenso e encerrado entre paredes brancas, ele não dá pistas sobre seu desfecho. Parece que o tempo não obedece à lógica dos ponteiros do relógio, mas reserva para o percurso uma duração desconhecida. De fato, não é sob o controle do tempo cronológico dos horários, do turismo e das visitas superficiais que o visitante fará a experiência proposta pelo Museu Judeu, pois, para isso, ele deve se abrir ao tempo imensurável das durações, o tempo da contemplação e da reflexão, o tempo da imaginação e do percurso imóvel ao longo dos labirintos da memória. Mais alguns passos é possível ver uma saída, uma outra porta à espera.

Lá está a mesma superfície metálica de antes, mas agora ela revela muitas faces, e uma extensão que não permite enxergar seu fim. De novo, surge o misterioso monolito, recortado por muitas fendas aleatórias, sempre estreitas e inclinadas. Cicatrizes. Marcas corpóreas. Afecções de Espinosa.
No entanto, mais adiante há inúmeras colunas de concreto, espaçadas entre si por distâncias constantes, que permitem apenas a passagem de um corpo. Do topo de cada uma delas emerge uma árvore. Alguns galhos e folhas se projetam para fora. Árvores sufocadas dentro de colunas lisas, frias e cinzentas. Jardins Suspensos da Babilônia. Por entre as colunas, cada vez que se muda de sentido, a inclinação do piso também o faz. Vertigem. O corpo procura sua linha de gravidade. Numa visão mais ampla, as colunas compõem um cubo perfeito. Forma totalmente ortogonal e familiar. No entanto, mesmo assim o corpo não consegue encontrar o equilíbrio. Ali não existe saída alguma. O único caminho possível que leva à saída é o caminho do retorno. Exílio.
De novo, chega-se ao ponto onde os caminhos se encontram, mas agora segue-se uma linha que vai pelo outro lado. Mais um corredor, encerrado entre outras duas paredes brancas. No seu final, uma grande porta negra esconde algum mistério. Só com muito esforço é possível movê-la.
Ali tudo é silêncio e as pupilas demoram a se acostumar com a densa escuridão. Essa densidade negra invade os poros da pele, coagula os membros. Um peso de chumbo negro. Torpor que cola no chão, que a abaixar lentamente o corpo, como se um peso infinito o dobrasse. A imobilidade enrijece os membros, contrai os músculos. Ácido láctico. O silêncio é tão grande que é possível ouvir a respiração com uma intensidade e uma presença nunca antes sentida. Experiências de imersão de Cage e o poço do conto de Edgar Allan Poe. Um pêndulo imaginário oscila. Tortura. Calabouço. Prisão. Panóptico. Foucault[1] e os métodos de esquadrinhamento do corpo. Corpos dóceis numa câmara de gás. Auschwitz. Após esse transe temporal, é possível ver um feixe de luz branca que penetra no recinto, vindo lá de cima. E a torre então se revela, com suas faces irregulares e uma altura que os olhos não conseguem alcançar. Luz branca. Vaga lembrança de uma mulher que lia trechos do Livro Tibetano dos Mortos diante de uma fogueira. Devir-deus da mulher.

Lentamente, o corpo consegue esboçar alguns movimentos. E o primeiro impulso, quando todos os sentidos se refazem, é o de atravessar novamente a porta em direção ao corredor. De novo, a única saída possível.
Nada resta senão seguir pelo outro caminho. Mais um corredor que se encerra por uma escada, e ali, no primeiro degrau, o espaço se abre para o alto, onde é preenchido por uma luz muito ofuscante que vem de fora. São muitos os degraus até o fim da escada, mas agora tudo é tão leve que não se sente nem os pés no chão. Entre as duas paredes que ladeiam os degraus, algumas vigas oblíquas que atravessam esse espaço parecem separar com muita força uma parede da outra. Elas vão abrindo um caminho infinitamente claro e calmo por entre os degraus da escada infinita. Desenhos de Escher, com seus percursos infinitos, ilusórios e circulares. Torre de Babel. Mas a leveza da névoa luminosa preenche tudo de tal forma que não há nada a fazer senão aceitar a irresistível dissolução em puro branco. O fim da grande escada não demora a chegar,e se abre em amplas salas iluminadas por janelas vazadas no estilo do cinema expressionista, rasgos oblíquos em paredes brancas. São eles os mesmos rasgos que fendem a grande superfície metálica. Dentro dessas salas, há algumas vitrines espalhadas, e dentro delas há desenhos, fotografias, documentos. Vestígios de uma estranha civilização.
“De um lado, por exemplo, podem ser encontrados os quadros de Max Lieberman, o famoso pintor e diretor da academia; do outro lado, as cartas que a mulher de Lieberman enviou ao chefe da Gestapo suplicando-lhe para que permitisse ao seu marido sair de Auschwitz, pois ela era a mulher do famoso Max Lieberman. De um lado, a ‘Via de Mão Única’ de Walter Benjamin, e do outro lado da ponte vazia, a carta de suicídio de Benjamin, enviada da Espanha. De um lado, as telas fabricadas pela indústria têxtil judia, e do outro lado da ponte, as fotos das lápides judias de granito negro, sem nenhum nome nelas inscrito, construídas para durar por toda a eternidade e nas quais hoje em dia ninguém presta atenção.” (LIBESKIND, 1996, p.11)
Entre essas salas, intermitentemente, e sempre escavados ao longo de uma mesma linha, aparecem alguns fossos vazios. Todos eles inacessíveis. Vazios que cortam todo o prédio, formando uma linha que atravessa toda a sua extensão, e segue rumo a uma destinação desconhecida. Linha de fuga. Atravessada apenas por algumas pontes vazias que fazem a ligação entre um lado e o outro. Essas brechas vazias são pausas que trazem novamente a sensação de calabouço. Insistem em fazer lembrar daquilo que se desconhece. São linhas de uma memória sem corpo, sem dono. Uma memória que ronda o lugar e que ecoa pelas paredes nuas desses fossos vazios, uma memória estranha aos meus pensamentos.

Um desses fossos permite o ingresso. Quando se atravessa o vão da porta grande e pesada, um tilintar metálico segue os passos. Esse som reverbera e se multiplica no espaço. São máscaras de ferro que o produzem. Elas forram todo o chão e se movimentam abrindo o caminho enquanto se troca os passos. São milhares. Centenas de milhares de máscaras. São duras, pesadas, de um metal já corroído pela eternidade do tempo. São todas iguais. Máscaras sem face. Afecções do esquecimento. Ficarão aqui ainda por muito tempo, esperando talvez que outras faces as ocupem para, enfim, devolver-lhes as dobras de pele que nelas encerram as linhas do tempo. Todas elas choram lágrimas invisíveis.
Com o corpo marcado e as mãos ainda trêmulas, deixa-se o grande prédio. Os olhos já cansados não conseguem ver o que se passa a uma certa distância. Quando cruzo a porta do antigo prédio das estátuas-sentinelas, a rua ainda está vazia. A grande superfície metálica já não é mais um segredo. Voltando-se para trás, é possível agora decifrar aquela inscrição em idioma desconhecido: JUDISCHES MUSEUM BERLIN.
Pode-se partir, mas o cavalo já não espera. Já não se precisa dele, pois a grande envergadura de duas asas rasga as costas. Elas têm uma penugem branca e macia que se move com o vento. Elas levam para o alto. De novo o grande prédio. “É surpreendente descobrir como o ziguezague que o Museu de Berlim forma com o Museu Judeu nunca será desvelado diante do público. Talvez apenas diante dos pilotos aéreos, ou antes, dos anjos.” (LIBESKIND, 1996, p.11)
Então, vem novamente a imagem da mulher e seu devir-Deus. Momento de oscilação que traz consigo o segredo de um devir. Anjo? Asas reais? Ou o piloto daquele avião que rasga o céu numa linha? A única coisa é que nesse momento é possível voar e atravessar o céu num rastro de puro branco. E, dessa viagem, o que se leva? As afecções de toda uma vida, e duas asas de fênix. Devir-anjo do cavaleiro, devir-cavaleiro do anjo.

[1] Para um estudo minucioso desses métodos, ver: FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1977.
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